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DOI

https://doi.org/10.7275/fsvn-fj83

Abstract

“Omnipresente” (Noa, 184) na fase cosmopolita do romance colonial, a cidade de Lourenço Marques aparece pouquíssimo nos romances moçambicanos contemporâneos. Mesmo o cenário da cidade pós-independência, como Maputo, é pouco explorado pelos romancistas (Can, 58). O Olho de Hertzog (2010), de João Paulo Borges Coelho, e As mulheres do Imperador (2018), de Ungulani Ba Ka Khosa, são exceções: ambientadas na Lourenço Marques do início do século vinte, as obras praticamente coincidem cronologicamente na abordagem da capital colonial, apresentando Lourenço Marques como cidade desigual, com demarcações muito nítidas do apartheid entre colonos e nativos. Obedecendo a diferentes modulações no que diz respeito ao gênero, as duas obras abordam de modo diverso aquela contradição colonial. Na mesma medida, e em outra configuração, as duas narrativas também apresentam Lourenço Marques na sua inserção cosmopolita periférica, situando a capital no plano de diferentes dinâmicas mundiais. O objetivo deste artigo é apresentar tais diferenças internas e tais dinâmicas externas a partir das vozes narrativas representadas nas obras de Borges Coelho e Ba Ka Khosa. Interessa-nos verificar os dois modos contemporâneos de releitura do imaginário colonial, contrastando-os na forma de exposição de Lourenço Marques. Tais modos são dúplices: em Ba Ka Khosa, um narrador histórico hipertrófico, com função descritiva e com perspectiva engajada e anticolonial, justaposto às vozes coletivas que expressam o conflito na cidade; em Borges Coelho, um narrador que, se constrói um protagonista cuja perspectiva sobre a cidade vai gradativamente se modificando, também delega aos materiais reais que manipula, em especial os anúncios urbanos (Helgesson, 2013) e os editoriais de João Albasini, a exposição das contradições inerentes à modernização da capital.

“Omnipresent” (Noa, 184) in the cosmopolitan phase of the colonial novel, the city of Lourenço Marques is rarely a scenery in contemporary Mozambican novels. Even the postindependence city, such as Maputo, is little explored by novelists (Can, 58). O Olho de Hertzog (2010), by João Paulo Borges Coelho, and As mulheres do Imperador(2018), by Ungulani Ba Ka Khosa, are exceptions to this: set in Lourenço Marques at the beginning of the 20th century, both works practically coincide chronologically in their approach to the colonial capital, presenting Lourenço Marques as an unequal city, showing, very clearly, the apartheid in action. The two narratives challenge the definition of the novel as a genre and approach the urban contradictions differently. Likewise, and in a different configuration, the two narratives present Lourenço Marques in its peripheral cosmopolitan insertion, placing the capital in relation to different world dynamics. The aim of this article is to present such internal differences and external dynamics by analyzing the representation of the narrative voices in Borges Coelho and Ba Ka Khosa. We are interested in analysing these two contemporary modes of reinterpreting the colonial imagination by contrasting their modes of representing Lourenço Marques. These are dual modes: in Ba Ka Khosa, a hypertrophic historical narrator, a voice which mostly describes and is juxtaposed to the collective voices that express the conflict in the city, showing an engaged and anti-colonial perspective; in Borges Coelho, a narrator who gradually shows the reader the main character's perspective of the city, one who also gradually changes throughout the novel, and also delegates the exposure of the contradictions inherent to the modernization of the capital to the real materials it manipulates, especially the urban signs (Helgesson, 2013) and the editorials of João Albasini.

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